domingo, outubro 12, 2014

Ulysses Guimarães: até o fim, lição de política



“A corrupção é o cupim da República”. A frase era repetida à exaustão pelo deputado Ulysses Guimarães, que desapareceu há exatos 22 anos num acidente de helicóptero no mar de Angra dos Reis. Doutor Ulysses, como era chamado, dedicou o último dia da sua vida, embora estivesse em momento de lazer com a esposa, Mora, e amigos, ao que sempre gostou de fazer na vida: política. Articulou até as últimas horas a formação do governo Itamar Franco, que acabara de assumir a Presidência após o impeachment de Fernando Collor. Na costura do novo governo, prometeu que se empenharia para conter o ímpeto do PMDB por cargos e o orçamento que vem embutido nesse pedido, já sabendo que essa era a principal moeda de troca nas relações dos partidos com o Executivo. Segundo amigos, ele já desconfiava das negociatas no submundo do Congresso, que levaram ao escândalo dos anões do Orçamento em 1993 e, atualmente, o mensalão.

— Ele, às vezes, comentava com alguns amigos, antes de estourar o escândalo dos anões: “Olha, ninguém discute mais o Brasil, só discutem orçamento. As pessoas estão mudando o padrão de vida, as pessoas só falam em comprar e vender apartamento, ninguém fala mais em Brasil, não se discute mais Brasil” — recorda-se o ex-deputado e ex-senador Heráclito Fortes, amigo próximo.


Sobre o “homem austero que ficava chocado com ostentação”, Heráclito conta outro episódio que o marcou. Estavam em Nova York, perto do Central Park, e Ulysses quis comer um cachorro-quente, daquelas de rua. Um deputado, numa limusine branca, os viu e convidou Ulysses para dar uma volta.

— Ulysses reagiu: “Sai daqui com esse carro, não vou me expor a um ridículo desses”. Depois que o deputado foi embora, ele comentou comigo: “Vê como são as coisas. Esse deputado não tinha condições disso há dois anos e agora está aqui, com essa limusine, tem algo estranho, deve custar uma fortuna” — contou Heráclito.

Até seu desaparecimento, Ulysses participou dos principais acontecimentos da História recente do Brasil. Liderou a resistência à ditadura militar, defendeu a anistia, comandou o movimento Diretas Já, presidiu a Assembleia Nacional Constituinte e disputou a primeira eleição direta para presidente após o regime militar, em 1989.

Saiu massacrado do pleito, com 5% dos votos, ficando em sétimo lugar. Humilhado, quase não conseguiu se reeleger deputado federal, em 1990, e passou por um período apagado. Só voltou à cena política na CPI do PC, em 1992, que resultou no impeachment de Collor.

— Ele era a solução sempre. Quando a situação ficava muito complicada, íamos ouvir o Ulysses — afirma o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ).

Para Ulysses, o mar era “silêncio e paz”

O hoje senador Luiz Henrique (PMDB-SC) relembrou recentemente, em artigo, um episódio já conhecido do amigo: escreveu que, em 8 de outubro de 1992, Ulysses o chamou para ir a seu gabinete. Henrique levou de presente uma coleção de gravações da Orquestra de Glenn Miller, feitas durante a Segunda Guerra Mundial. Ao receber o presente, Ulysses afirmou: “Homem feliz, esse Glenn Miller. Teve uma vida de sucesso. Desapareceu no mar. O mar é silêncio e paz! Quando eu morrer, se me botarem num caixão, pode dizer que ali vai um homem contrariado!”.

— O diálogo era a arma dele. Só tinha uma arma: a palavra dele. Não tinha poder, não era governador, era um presidente de partido. No meu combate do impeachment, ele me orientou várias vezes— diz o senador Pedro Simon (PMDB-RS).

O ex-ministro Nelson Jobim, que foi o braço-direito de Ulysses na elaboração da Constituição de 1988, resume como ele atuava na Constituinte:
— O doutor Ulysses não se atirava em aventuras, não era de rompantes. Os rompantes eram todos preparados.


FONTE: O GLOBO
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