quinta-feira, dezembro 24, 2015

E se soubesse qual seu prazo de validade, o que faria? Está pronto para sair de cena?







Para saber até quando um produto mantém boas condições de consumo, é feita uma análise em laboratório, com pequenas amostras, para avaliar sob que condições e em que velocidade ele se deteriora. Com base nessa avaliação, chamada de teste de vida de prateleira, é que se determina o prazo de validade de alimentos. A data de validade é um guia não só para quem consome, mas tem sua aplicação na vida. 
Quando nascemos, recebemos conosco um mistério que permanecerá indecifrável, no entanto, povoando as nossas mentes durante toda nossa  vida: a data de nossa partida. O fato de desconhecermos essa informação modifica completamente a perspectiva que temos sobre a estrada diante de nós. Se soubéssemos, talvez muitas correções seriam feitas periodicamente. 
Na infância, a partir do despertar da consciência plena – lá pelos 6, 7 anos de idade – até o auge da juventude, nos seus 20 e poucos anos, a noção de tempo é completamente inexata. Então o negócio é curtir a vida e experimentar coisas e emoções novas. A menos que sejamos surpreendidos com um forte solavanco nos transcursos da vida. Um exemplo é a perda de uma pessoa querida ou sermos acometidos de alguma doença grave. Ai podemos despertar e reavaliar essa falsa convicção da ‘imortalidade’.  Aliás, em nossa juventude sempre pensamos "tudo ainda está por viver e todos os sonhos são possíveis." 
Mas à medida que o tempo passa, nossa perspectiva também se molda à nova realidade. Já na idade adulta, até a meia-idade, que seja entre 30 e 50 anos, sendo essa definição, uma arbitrariedade minha, perdemos a sensação de ‘imortalidade’ que nos acompanhou pelos primeiros vinte e poucos anos…Percebemos também que nem todos os sonhos são possíveis (o que não nos impede de seguir sonhando), e aprendemos que muitas vezes o destino nos oferece caminhos completamente inesperados e que precisamos tomar decisões que jamais haviam sido cogitadas.  Descobrimos que a oferta do tempo não é ilimitada, pois já sentimos a dor da partida de gente querida e próxima, e em algum momento passamos a crer que isso também pode acontecer conosco. E as vezes imaginamos não estar tão distante. Isso só suposições.
Não posso falar por experiência própria de como é a relação com o tempo no período mais maduro de nossas vidas, mas assumo que mesmo inconscientemente devemos valorizá-lo cada vez mais à medida que o temos cada vez menos validade. Nessa época, os pequenos momentos – muitas vezes desprezados em nossa juventude ‘imortal’ – ganham mais importância e são mais apreciados. Uma boa conversa, umas boas gargalhadas, essas coisas simples, que agora, com o tempo, passamos a dar e sentir o seu real valor. É por isso que nossos avós valorizavam tanto os almoços em família, enquanto muitas vezes o mesmo evento era tratado com certo desdém pelos mais jovens. Afinal, a "molecada" pensa que tem todo o tempo do mundo, e os primeiros sabem que não é bem assim…
Todos temos um ‘prazo de validade’, o detalhe é que ele é desconhecido. Pode ser amanhã, em um acidente banal, como pode ser aos 100 anos, vitimado pelo tão comentado Mal de Alzheimer. E se soubéssemos qual é o nosso? Eis aí uma informação com o poder de mudar dramaticamente a maneira pela qual encararíamos a nossa trajetória…
Ocorre que uma suposta informação sobre o nosso ‘prazo de validade’ não deveria alterar a maneira pela qual encaramos a vida. Se isso acontece, é por que não estamos tratando bem o tempo que nos foi concedido. É por que não estamos levando a séria a possibilidade de uma partida repentina, talvez…
Se tivesse que ser agora, quantas coisas mal resolvidas, mal explicadas, mal acabadas não ficariam para trás? Tenho 54 anos e o meu prazo de validade, assim como o seu, se constituí em uma enorme interrogação, ‘pra quando o vencimento?’ Desconhecido. Totalmente desconhecido!!! 
Para esse tema em especial, eu não confio nas estatísticas, pois já fui traído por elas. Vez por outra, leio que a média de idade das pessoas desencarnarem se eleva a cada  pesquisa. Creio na imortalidade, mas a nossa vida, do jeito que conhecemos, é finita; somente o fato de você já não ter contato físico com quem te acompanhou por décadas, modifica completamente o contexto da nova etapa, a que experimentamos quando o nosso prazo nesse mundo termina….
Por conta dessas circunstâncias, passei a me preocupar muito mais com a qualidade da jornada do que com planos com a próxima parada. Se a jornada for boa, tenho certeza de que me levará a um bom destino. Felizmente, esse aprendizado ocorreu ainda em uma fase da vida onde pode ser aplicado. O tempo voa….mas não perdoa as coisas que você faz sem ele. Precisamos tratá-lo bem enquanto estivermos dentro do prazo de validade. 
Temos, acredito eu, que pensar com seriedade em levar as nossas situações bem resolvidas, mas não permitir que a preocupação com o prazo de validade seja maior que os sonhos. É preciso realimentar as boas ambições todos os dias. Dizer às pessoas que nos são queridas o quanto as amamos e as estimamos. O quanto elas foram e são importantes para a nossa jornada. 
Obrigados à todos que conviveram e continuarão a conviver comigo, até o termino do meu prazo de validade. Tomara que ainda seja longo, mas se for por agora, tudo bem, é por que tudo finda. Mas a vida segue, sempre....








 

0 comentários:

Postar um comentário