segunda-feira, fevereiro 27, 2017

Cervejas industriais ficaram 40% menos amargas nos últimos 20 anos, aponta estudo


As cervejas industrializadas ficaram 40% menos amargas, em média, nos últimos 20 anos. A mudança, implementada pelas grandes cervejarias para atender ao paladar da maior parcela dos consumidores está afetando a demanda mundial por lúpulo – planta da família canabinácea que há quase um milênio se consolidou como o principal agente de conservação e de amargor da bebida –, segundo o Relatório da Colheita Global, feito por um grupo de especialistas e publicado pela Associação de Cervejeiros dos Estados Unidos.

lúpulo
Há 20 anos as cervejas tinham, em média, 6,7 gramas de ácidos-alfa (substância responsável pelo sabor amargo, encontrada nas glândulas de resina da planta fêmea do lúpulo) (foto) por hectolitro, aponta o estudo assinado por Horst Dornbusch, Georg Drexler, Walter Konig, Rodrigo Vilches e Ian Ward. No ano passado, este volume havia caído para 4 gramas por hectolitro.

No mesmo intervalo de duas décadas, a produção mundial de cerveja cresceu quase 70%. Passou de 116,3 bilhões de litros para 196,4 bilhões de litros. Variados estudos estimam que pelo menos 90% correspondem às cervejas industriais classificadas internacionalmente como “lager americana padrão”, e vendidas no Brasil com a denominação “tipo Pilsen”.

— A imensa maioria dos estudos aponta grande rejeição da maior fatia do público mundial ao amargor, especialmente as mulheres, e o Brasil não é diferente. A partir de informações assim, a indústria busca atender ao público mais amplo possível. Aumentar o amargor seria favorecer a migração para as bebidas à base de vodka com sabores, como já vem ocorrendo nos públicos mais jovens — explica uma analista sênior de um instituto de pesquisa responsável por análises para a indústria cervejeira.

Excedente atenderia ao consumo mundial por mais de um ano

Plantação de lúpulo
A área plantada de lúpulo no mundo caiu de 56,7 mil hectares em 2009 para 46,9 mil hectares no ano passado, ou 17,2%. A diminuição é comum aos seis principais países produtores – Alemanha, Estados Unidos, República Tcheca, Polônia, Eslovênia e China –, que respondem por 91% total. Na produção, a redução seria de 11,8%. É o ponto mais baixo desde 2006, quando foram colhidas 85,6 mil toneladas.

A Alemanha é o maior produtor de lúpulo do mundo, concentrando 37,4% do total, o equivalente a 33,2 mil toneladas. Em seguida, vêm os Estados Unidos, com 27,5 mil toneladas (31%), e a China, com 10,1 mil toneladas (11,4%). Devido ao clima, o Brasil não produz lúpulo. Poucas espécies se adaptam ao calor intenso do país, e apenas algumas experiências de pequeno porte foram bem-sucedidas no Sul do país.

Os plantadores de lúpulo reagem tardiamente, segundo os pesquisadores, à redução da demanda por parte das megacervejarias multinacionais, como AB InBev, SAB Miller, Heineken e Carlsberg. Ainda assim, o consumo total corresponde a 80% do volume produzido. O estudo mostra um excedente acumulado de 10 mil toneladas de ácidos-alfa, enquanto o consumo anual é de cerca de 8 mil toneladas.

De acordo com dados da Convenção Internacional de Plantadores de Lúpulo (IHGC, na sigla em inglês), o quilo de ácido-alfa custou, em média, em 11 euros no mercado spot (de curto prazo), mas os preços flutuam muito nos contratos entre os fazendeiros e os compradores da indústria. A IHGC também reconheceu, em relatório no fim do ano passado, que a “exaustão desta superprodução certamente ainda vai demorar algum tempo”.

“Da forma como vemos, a área e a produção associada vão decrescer ainda mais por mais alguns anos e podem cair até abaixo da demanda de cada ano cervejeiro subsequente”, afirmaram os pesquisadores Heinz-Jürgen Cooberg e Peter Hintermeier, da associação alemã de produtores da matéria-prima, no documento.


O Globo



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