segunda-feira, abril 03, 2017

A crise do casamento - Regina Navarro Lins


Regina Navarro Lins (foto) é psicanalista e escritora, autora de 11 livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller “A Cama na Varanda” e “O Livro do Amor”. 

Regina escreve em seu blog, ao qual ela deu o seu nome, sobre o caso de uma internauta ,brasileira, que deseja cancelar o casamento, porque teria que viver numa cidade pequena dos Estados Unidos e não poderia se desenvolver profissionalmente.

A mensagem da internauta é a seguinte: “Estou com o casamento marcado e numa situação bem difícil. Ele foi fazer doutorado nos Estados Unidos e depois que se formou conseguiu um ótimo emprego por lá mesmo. Só que há um ano foi transferido para a filial da empresa, que fica numa cidade muito pequena. Já fui visitá-lo duas vezes e tenho certeza de que não quero morar nesse lugar de jeito nenhum, principalmente porque não terei como evoluir na minha profissão. Penso em terminar a nossa relação e ficarmos amigos. Sei que vai ser um choque não só para ele, como também para nossa família. O que fazer?”

Regina explica que algumas décadas atrás, ela não poderia nem sonhar em tomar uma atitude dessas. A expectativa, principalmente em relação as mulheres, era que os desejos pessoais fossem sacrificados em prol do casal. As mentalidades estão mudando tanto que o casamento está em crise. E isso tem uma história.
Por volta da década de 50 o amor e o casamento caminham juntos, já que a sexualidade continua vinculada à procriação. As mães solteiras são repudiadas, embora já se notem sinais de maior tolerância às relações sexuais antes do casamento, desde que os noivos se amem e pretendam se casar. Mesmo assim a maioria das moças ainda recusa maior intimidade. A reputação delas se apóia em sua capacidade de resistir aos avanços sexuais dos rapazes.
Uma radical modificação dos costumes inicia-se na década de 60, com o advento da pílula anticoncepcional. A mulher reivindica o direito de fazer do seu corpo o que bem quiser e assim a sexualidade se dissocia pela primeira vez da procriação. Já não é mais necessário casar para manter relações sexuais regulares. Multiplicam-se os casais que moram juntos sem assinar contrato.
As vantagens do casamento institucional passam a ser questionadas. Em termos de aceitação social nada acrescenta, pois parentes e amigos já haviam se acostumado à ideia. No plano jurídico, cada vez mais as leis consideram uma coabitação comprovada como tendo os mesmos direitos do casamento.

As perdas parecem ser maiores que os ganhos. Casar soa como abrir mão da liberdade, sacrificar possibilidades pessoais e, em última instância, limitar a pessoa. Acentua-se o temor de que o casamento estrague a relação, que o compromisso transforme o sentimento em hábito e rotina.

“Parece-lhes impossível amar por contrato: prometer afeto não será transformá-lo num dever? Eles querem ser amados pelo que são e não por obrigação. Insistem em preservar a espontaneidade, o frescor, a intensidade da união e alguns creem que a falta de compromisso, a precariedade institucional de sua relação a dois é a garantia mesma de sua qualidade”, diz o historiador francês Philippe Ariès. A relação a dois é um assunto estritamente privado, sendo difícil admitir que uma terceira pessoa estranha, um representante da lei, administre o que há de mais íntimo entre duas pessoas: o afeto e a sexualidade.
Nos anos que se seguem, menos casamentos são celebrados. Em todo o mundo ocidental aumenta o número de solteiros, ao mesmo tempo em que a coabitação resulta cada vez menos em casamento. Estar casado deixa de significar a assinatura de algum documento. São consideradas casadas as pessoas que mantêm uma relação fixa e estável, algumas vezes até morando em casas separadas.
Com todas essas transformações, a família é abalada. Ninguém se lembra mais da época em que muitos colégios recusavam filhos de pais separados. E isso acontecia até poucas décadas atrás. Aquele lar formado por um casal e filhos não é mais a norma. Há um número crescente de famílias com apenas um genitor. Muitas vezes são mães solteiras que decidiram ter e criar seus filhos sozinhas.
São várias as causas da crise do casamento: a crença equivocada de que o amor é a solução para todos os problemas; a relação íntima do amor com o casamento; o aumento da longevidade; a diminuição da religiosidade; os contraceptivos que permitiram a emancipação feminina; a liberação sexual; a aspiração ao individualismo, que caracteriza a modernidade, levando à valorização do eu sobre o nós conjugal.
A auto-realização das potencialidades individuais passa a ter outra importância, colocando a vida conjugal em novos termos. Acredita-se cada vez menos que a união de duas pessoas deva exigir sacrifícios. Observa-se uma tendência a não se desejar mais pagar qualquer preço apenas para ter alguém ao lado. É necessário que o outro enriqueça a relação, acrescente algo novo, possibilite o crescimento individual.
“O homem atual passa por uma nova Renascença — todas as aventuras são desejáveis, continentes novos devem ser descobertos e explorados, navegações por mares estranhos são encorajados, limites devem ser transpostos…desde que para dentro de si mesmo. O novo mundo a ser descoberto é o próprio homem.”, diz a terapeuta Purificacion Barcia Gomes.
O casamento torna-se, então, um pesado fardo, pois dificulta a realização do projeto existencial com suas metas individuais e independentes até das relações pessoais mais íntimas. Surgem conflitos na tentativa de harmonizar a aspiração de individuação com uma vida a dois, mas homens e mulheres, como mostra a atitude da internauta, estão cada vez menos dispostos a sacrificar seus projetos pessoais. Ainda bem. Afinal, o preço cobrado depois pode ser tão alto que inviabilize a própria relação.


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