segunda-feira, junho 05, 2017

Parece só tristeza; veja os sintomas da depressão


Por dentro é só cansaço. Tédio, apatia, falta de qualquer vontade, exceto a de desaparecer como uma luz que se apaga. O ato mais corriqueiro, como sair da cama, requer um esforço inimaginável. Por fora, incompreensão. Aquilo que o outro não sente é nomeado preguiça, frescura, ou até ‘falta de Deus’. São os dois lados de uma doença insidiosa e debilitante, difícil de diagnosticar, de tratar, e de conquistar a compreensão de quem não a enfrenta: a depressão.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 11,5 milhões de brasileiros, o equivalente a 5,8% da população, sofrem de depressão. Os sintomas são parecidos com os de um dia ruim. Tristeza, angústia, insônia, sono em excesso, mudanças de humor, distúrbios de apetite, dificuldades de concentração e sentimentos de culpa, tédio e apatia. Quem nunca passou por isso? O problema é quando os sintomas se prolongam e se associam a sintomas mais graves, como isolamento, alucinações, tendências à automutilação e até impulso de tirar a própria vida.
O aparecimento da síndrome depende de fatores sociais, psicológicos e biológicos, incluindo a predisposição genética. Pessoas que passaram por traumas psicológicos, como o luto, têm maior probabilidade de desenvolver a doença.
É o caso da copeira Priscila Moreno, 44, que foi diagnosticada após perder a mãe. Os sintomas foram controlados com medicação e terapia, até que, seis anos depois, ela também perdeu o pai. "A tristeza me dominou. Fingia rir quando estava com outras pessoas. Já senti vontade de sair pela rua sem destino, de me matar. Sinto tristeza, saudade, um turbilhão de emoções", conta. Ela ainda enfrentou dificuldades para ser compreendida pela família. O marido só entendeu a situação quando os sintomas ficaram mais graves: "Um dia eu acordei e não sabia o nome da minha filha. Fui levada ao hospital e mal conseguia responder às perguntas, só dizia que queria morrer. Foi só então que deu para perceber a gravidade do problema".
De acordo com o psiquiatra e psicanalista Sérgio Almeida, da Sociedade Brasileira de Psicanálise e da Santa Casa de Misericórdia do Rio, é importante que as pessoas próximas ofereçam apoio e não evitem contato com quem sofre do mau. "Frequentemente, alguns tendem a ver a pessoa como inerte, preguiçosa, indolente", explica. O estigma é tão comum que, antes do diagnóstico, Priscila também pensava assim. "Nunca achei que aconteceria comigo. Na minha inocência, por não conhecer a doença, achava que seria fácil sair dela".
O mesmo aconteceu com o técnico em enfermagem Vagner Lima, 36 anos. Ele não compreendia a situação de um amigo depressivo, até que passou a sofrer do mesmo mal. "Eu o chamava de egoísta, achava que ele tinha tudo para ser feliz e vivia chorando e triste. Eu era o primeiro a criticá-lo. Uma ironia da vida". Há quatro anos, um amor não correspondido foi o gatilho para a sua depressão, que o aflige até hoje. "Tento vencer essa dor invisível. Ir para para o trabalho é uma luta. Me tornei dependente de medicamentos para dormir e tento esconder a depressão dos amigos. Acho que os dias em que digo que estou bem, na verdade são os dias em que estou pior", avalia.
Grupos de apoio
Vagner foi adicionado pelo amigo ao grupo 'Depressão' no Facebook, onde quase 14 mil membros compartilham experiências. Fora do mundo virtual, o grupo de apoio mais conhecido é o 'Neuróticos Anônimos (N/A)', que segue uma adaptação do pioneiro programa do 'Alcoólicos Anônimos (A.A.)', com 12 tradições e 12 passos ('O primeiro passo é admitir'). No Rio de Janeiro, o N/A tem 55 salas espalhadas pelo Interior, Baixada, Região Metropolitana, Região dos Lagos e capital.
Qualquer pessoa pode frequentar os grupos: "Neurótica é a pessoa cujas emoções interferem em seu comportamento. Se sentimentos negativos roubam-lhe a alegria de viver, procure-nos", diz o site da organização. Nas reuniões, os membros estudam o programa e trocam experiências. O doutor Sérgio Almeida aprova o método, embora lembre que ele não substitui a terapia. "Qualquer possibilidade de socialização deve ser estimulada e respeitada, mas são tratamentos acessórios", explica. As reuniões do Neuróticos Anônimos são gratuitas.
Sem distinção de sexo ou idade
Outras doenças e uso prolongado de certos medicamentos também podem desencadear um quadro depressivo. A doença não faz distinção de sexo ou faixa etária. De acordo com a OMS, 8% das crianças entre 6 e 12 anos sofrem de depressão. O mais comum é ser decorrente de formas de autismo, distúrbios alimentares e reações a situações de estresse.
No caso da estudante Bianca Oliveira, 18, a depressão foi uma evolução de um quadro de claustrofobia (medo patológico de locais fechados e apertados). Ela sofre com o problema há 12 anos, ou seja, desde os 8 anos de idade. O diagnóstico em crianças pode ser mais complicado devido às dificuldades de verbalização. Bianca só conseguiu terapia adequada aos 15 anos. Por ser tão jovem, estudante enfrentou a falta de compreensão da família. "Minha família é muito religiosa, diziam que era coisa de criança, falta de Deus, que ia passar. Na escola, a mesma coisa, as professoras não entendiam. Não julgo, havia pouca informação disponível na época. Então, guardei para mim, passava por tudo sozinha", lembra. Hoje, ela está fora da terapia, mas planeja voltar. Os tratamentos psicoterápico e psiquiátrico são fundamentais para a recuperação. Universidades, hospitais públicos e clínicas sociais costumam oferecer as consultas a preços acessíveis.
Para Bianca, a falta de terapia teve consequências quase fatais. Por duas vezes, aos 13 e aos 15 anos, ela tentou tirar a própria vida. O delicado tema da depressão e do suicídio entre adolescentes ganhou exposição por causa da série ‘13 Reasons Why’ (‘Os 13 porquês’, em tradução livre), que relata a trajetória de uma jovem que tira a própria vida após uma série de eventos traumáticos. O sinistro jogo da ‘Baleia Azul’ acendeu o alerta vermelho por incentivar adolescentes tirarem a própria vida seguindo ordens de anônimos na Internet.
O suicídio pode ser provocado por um dos sintomas mais comuns da depressão, a anedonia, que é a incapacidade de sentir prazer e alegria. Aos poucos, o indivíduo pode perder o interesse e apego pelas coisas das quais gostava, as pessoas queridas e, eventualmente, pela própria vida. O mau do espírito pode ter consequências diretas no corpo. Durante o quadro depressivo são liberados os hormônios do estresse, como o cortisol, na corrente sanguínea, o que enfraquece o sistema imunológico. O depressivo pode apresentar sintomas físicos, como fadiga, dores de cabeça e no corpo, problemas digestivo e alterações de peso. Na esfera mental, pode levar até mesmo a alucinações.
Severa, insidiosa, devastadora. A depressão pode ser muitas, mas não é invencível. Conhecer os sintomas e estar atento é importante para se proteger e estar apto a estender a mão a quem precise de ajuda, mesmo que não saiba disso.
ODia 
Reportagem da estagiária Nadedja Calado, com supervisão de Marlos Mendes

0 comentários:

Postar um comentário