quinta-feira, julho 20, 2017

Pode falar? * Rosana Leite Antunes de Barros


É comum a afirmação que mulher costuma falar demais. Entretanto, esse não é um elogio, sendo uma forma pejorativa de dizer que falam sem qualquer reflexão.
           
Os incapazes, seja qual for a causa, são seres humanos que precisam de controle e acompanhamento, até na fala, para que não venham causar problemas com a forma de se expressar. E assim muitas mulheres ainda são conhecidas.

Segundo alguns, as mulheres não sabem o que falam. E quando ganham o direito a se expressar pela fala, ficam conhecidas como difíceis de conviver, e que tentam se impor com empáfia. Como outrora, ainda existem mulheres proibidas de falar em público, porquanto, podem causar transtornos.           

Entretanto, cuida-se de uma crendice popular, até para não despertar o valor social merecido ao discurso das mulheres. Quanto aos estudos sobre o tema, há certa contradição.

A Universidade da Califórnia detectou que os homens falam mais. Já o psicólogo social James W. Pennebaker afirma que a diferença não é significativa. A Universidade Northeastern descobriu que tudo depende do contexto social para detectar qual o gênero mais discorre.
Historicamente, a mulher considerada boa de conviver é a quieta. Aquela que muito se expressa é relegada a “mandar no relacionamento”, logo, de difícil convivência.

E justamente através de situações tais, as mulheres tiveram a dignidade negada, ficando circunspectas ao âmbito privado.

E assim, às vezes, são conhecidas como “esposas sagradas”, sendo “guardadas” apenas para aconselhamentos. As piadas são constantes de que as melhores pouco falam.
           
A “fala pelos cotovelos”, geralmente, é atribuída às mulheres. E esse ciclo é alimentado com maestria, tolhendo-a da importante representatividade, ficando espaços de discernimento para o gênero masculino.

As falas de peso são vindas dos homens, pela sensação de que é deles o fidedigno conhecimento.
           
As conversações acabam se tornando campo de batalha para o gênero feminino. Quando não são interrompidas infinitas vezes, independente dos interlocutores, homens tentam explicar coisas banais de maneira paternalista, como se elas não tivessem conhecimento para conversar sobre determinado assunto.

Sem contar que fica quase impossível uma mulher “ganhar” uma discussão com o gênero masculino. Essa forma de se portar contra as mulheres é conhecida como “mansplaining”, que é a junção das palavras homem e explicação, ou seja, homens explicam.

Os homens possuem explicação mais contundente aos variados temas.
           
E relembrando aos nossos antepassados, puxando pela memória, as mulheres são a doçura, a ternura, até na fala. E os homens só são chamados em última instância, para fechar o raciocínio, quando elas já tentaram resolver a problemática familiar sem sucesso.  
           
Quando o homem se exalta ao falar, fica evidenciado que faz parte do gênero masculino, o estresse com facilidade.

Entretanto, mulher quando se exaspera, sofre violência emocional, pois não pode “sair do sério”.

Não raras vezes, é possível presenciar as frases usadas contra o gênero feminino, com o afã de reduzi-las à condição de fracas psicologicamente: “Você tá nervosa, é TPM?” “Você é muito sensível” “Você está louca?” “Você não aceita brincadeiras?”.
           
Para que as mulheres possam avançar, é preciso obstruir algumas práticas vivenciadas coletivamente como comuns.

Onde existe o espaço para a alocução, as mulheres devem estar presentes.

A linguagem e as atitudes que retirem a cultura machista do seio social é forma de procedimento obrigatório em tempos atuais.

O recinto é comum. Mulheres, a fala também lhes pertence.
             

*Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública em Mato Grosso.

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