segunda-feira, outubro 02, 2017

Pós-parto * Rosana Leite Antunes de Barros


Estudo da Fiocruz, em decorrência de desdobramentos da pesquisa "Nascer no Brasil", detectou que uma a cada quatro mulheres que já tiveram filhos e filhas no país, apresentam sintomas de depressão pós-parto.
Situações inesperadas podem acontecer no corpo feminino durante e no final da gravidez, pela alteração hormonal. O período da gestação faz o corpo da mulher apresentar mudanças. Algumas são inesperadas e sem exibir qualquer aviso prévio. Outras, com um bom pré-natal podem ser amenizadas. Entretanto, existem algumas vezes que nada pode ser feito, apenas o tratamento clínico com o aparecimento dos sintomas pouco desejados.
Apesar de o senso comum mencionar apenas a depressão pós-parto, outras situações podem ocorrer, tais como a baby blues e a psicose. Através da depressão pós-parto, que se consubstancia na necessidade de um tratamento mais longo, a mulher perde o interesse por coisas antes prazerosas, apresenta humor deprimido, pensamentos negativos e sensação de ser incapaz de cuidar do recém-nascido. O baby blues costuma ser limitado aos primeiros 10 dias de nascimento do bebê, se caracterizando por uma leve tristeza, que se resolve espontaneamente. A psicose puerperal é uma doença mais grave, onde a parturiente passa a ter delírios. Tanto a última quanto a primeira enfermidade mencionada são de extrema gravidade na vida da mulher, podendo redundar em suicídio e infanticídio.
O número de mulheres que apresentam a depressão pós-parto é de uma em quatro. Estima-se que 70% daquelas que geraram podem ter alguma forma de tristeza. Já a psicose tem atingido uma a cada mil mulheres.
É inegável que um apropriado pré-natal pode detectar sinais de que a mulher poderá passar pela problemática. A prevenção sempre é o melhor remédio. Todos os males mencionados se constituem em alguma forma de amargura apresentada.
A mulher sempre ficará com os maiores ônus com o nascimento do filho ou filha. A espera é gratificante, o preparo, e a esperança em gerar um descendente. Todavia, as mudanças internas e externas no corpo feminino ocorrem naturalmente.
Na atualidade, a cultura pelo corpo perfeito é massificada. Apenas com o tempo a mulher que gestou poderá contar com o físico de outrora. O tempo de sono, as mamadas e cuidados especiais com o bebê, ficarão, em regra, para a genitora. Todas essas circunstâncias expostas fazem com que ela sinta que a sua vida mudou drasticamente. Para muitas é difícil se enxergar com a novel vida de mãe e acabam permitindo que a aflição tome conta.
O medo do desconhecido pode trazer elucubrações perigosas e desaguar em inúmeros problemas. A criação de muitas expectativas sobre quem será aquele novo ser, que caminhos tomará no futuro, se conseguirá aprender as coisas mais simples da vida, poderão transformar a alegria da chegada em sentimento maléfico.
Os exames realizados nas mulheres em época de consultas clínicas durante a gravidez normalmente analisam mãe e nascituro no aspecto físico, nunca psíquico. Após o nascimento do bebê a preocupação fica concentrada na criança, com "esquecimento" da matriarca.
O Ministério da Saúde afirmou, através de nota, que os profissionais têm sido capacitados para acompanhar a gravidez focando, também, na saúde mental. É possível identificar alguns casos onde os problemas se desenvolverão. A condição psicoemocional nunca pode ser descartada.
Os transtornos mentais são tabus na sociedade. Relato de uma mãe no auge da depressão puerperal detecta o preconceito em se assumir a condição de doente: "Pare de chorar porque o seu marido vai cansar."

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual.
 

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