segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Cientistas derrubam mito do 'mau-humor de segunda-feira e dizem que temperamento é genético



Apesar do conhecido ódio às segundas-feiras, uma nova pesquisa diz que terças, quartas e quintas podem ser igualmente entediantes para o público. Pesquisadores americanos que fizeram uma enquete com 340 mil pessoas descobriram que o humor delas não é pior na segunda-feira do que em qualquer outro dia da semana, exceto nas sextas-feiras.

A pesquisa revelou entrevistados mais felizes no dia que antecede o fim de semana, o que fortalece a ideia de que a sexta-feira traz "um sentimento especial". Os autores da pesquisa disseram à publicação Journal of Positive Psychologyque a ideia de horríveis segundas-feiras deve ser descartada.

"Os mitos culturais podem estar enfatizando demais os padrões de humor de um único dia da semana", afirmou o líder do estudo, Arthur Stone, o professor da Universidade Stony Brook, em Nova York, nos Estados Unidos. A equipe de Stone também diz ter descreditado as afirmações de que a segunda-feira da última semana de janeiro, conhecida como "segunda-feira triste" no Hemisfério Norte, é o dia mais deprimente do ano inteiro.

As pessoas dizem se divertirem mais e terem menos preocupações nas sextas-feiras, nos sábados e nos domingos, em comparação com os outros dias da semana. E é este contraste entre o humor do domingo e o de segunda-feira que faz com que o primeiro dia útil da semana ganhe o título injusto, explica Stone. Os pesquisadores analisaram dados de uma enquete do instituto Gallup feita por entrevistas telefônicas.

Humor é herança transmitida pelos pais

Assim como a cor dos olhos ou a estatura, o humor é uma herança transmitida pelos pais, o que explica a existência de famílias compostas por parentes animados e bem-humorados e outras famílias marcadamente tediosas.

Mas o estado de espírito não depende só dessa influência imutável, que é a genética. Também está relacionado à educação recebida na infância. Pais que vivem reclamando de tudo e acham que nada dará certo, por exemplo, transmitem esse humor aos filhos. "Inconscientemente, ensinam as crianças a reagir dessa forma. Um erro que pode levar anos para ser reparado", diz o professor de psicologia experimental da USP Ailton Amélio da Silva.

Por fim, há a influência da percepção de cada pessoa. Receber uma fechada no trânsito deixa qualquer um mal-humorado, mas há quem faça disso um drama que se estende pelo resto do dia, enquanto outros dão menos importância ao incidente, e a irritação se dissipa em questão de minutos. "A rabugice depende muito do momento de vida de cada um, do estado psicológico da pessoa", complementa Nardi.

O fato é que as pessoas podem e devem perseguir o bom humor. A ciência já provou que os mal-humorados têm mais problemas de saúde, como quedas no sistema imunológico, hipertensão e propensão maior a desenvolver doenças. O cortisol, hormônio liberado em momentos estressantes, é o responsável pelo estrago. Tanto é que o mal-humorado --seja portador de distimia ou apenas um nervosinho controlável-- está sempre reclamando de dores pelo corpo, como enxaqueca e problemas de estômago. Por trás das queixas estão o estresse e suas conseqüências.

E driblar o mau humor ocasional, e não o crônico, doentio, não é tão difícil (leia, ao lado, algumas medidas certeiras). Uma pesquisa da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, comprovou algo que já se desconfiava: cheiros agradáveis costumam melhorar o humor das pessoas.

Ajuda saber também que o mau humor é contagioso. Após acompanhar a vida de 60 casais, pesquisadores da Universidade Northwestern, em Ilinois (EUA), concluíram que um temperamento único domina as duas pessoas em um relacionamento. Se um dos parceiros for do tipo irritadiço, esse modo de ser acaba virando um traço da personalidade do casal. "Não podemos explicar como esse contágio acontece, mas o fato é que o mau humor tem efeito cascata. É, em geral, contagioso. No ambiente de trabalho, ele parece dominar, basta uma pessoa se descontrolar", diz a psicóloga Mariângela Savoia, do HC.

Já a crença de que, com a idade, o humor muda para pior é falsa. Os estudos provam o contrário: com a maturidade, o mau humor não só se abranda como pode até desaparecer.

Estado de espírito também é uma questão cultural. O psicólogo Richard Weisman, da Universidade de Hertfordshire (Reino Unido), provou a tese em um estudo. Ele disponibilizou um site para descobrir a melhor piada do mundo. Recebeu mais de dois milhões de diferentes países.

Adivinhe quem ganhou a brincadeira. Um inglês. E o pesquisador chegou à conclusão de que o senso de humor varia geograficamente --e muito. Para entender por que, veja a piada vencedora: dois caçadores estão na floresta e, de repente, um se sente muito mal e cai. Sua respiração pára e ele fica pálido. O outro liga imediatamente para o hospital e pergunta o que fazer. O médico atendente informa que, primeiro, é preciso ter certeza de que o amigo está mesmo morto. O doutor, após um silêncio, ouve o som de um tiro, e o homem volta ao telefone dizendo: "OK, agora tenho certeza de que ele está morto. E agora, o que faço?". Provavelmente a piada não faria sucesso aqui.

Valer-se de bom humor em época de desemprego também rende frutos, especialmente durante a entrevista de trabalho. "Quem tem humor mostra que é capaz de ver uma situação de vários ângulos. Também é sinal de segurança. Só não vale exagerar", diz a psicóloga Vera Rita de Mello Ferreira, que dá consultoria na área de recolocação profissional.

No jogo da sedução, o bom humor também entra em cena. É a exigência número um das pessoas na hora de escolher a cara-metade, segundo uma pesquisa feita pelo instituto Ipsos em dez países: Brasil, Canadá, Estados Unidos, China, França, Alemanha, Inglaterra, Rússia, Índia e Japão.

"As pessoas não imaginam o efeito que o bom humor tem no sucesso de um relacionamento. O pesquisador americano John Gottman costuma dizer que é preciso sempre procurar nas relações cinco coisas boas para uma ruim, e o bom humor certamente está na lista dos benefícios", diz o psicólogo Ailton Amélio da Silva.


FONTES:BBC  BRASIL E FOLHA DE SÃO PAULO

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