domingo, setembro 30, 2018

Você sabe o que é Caviar? - Eduardo Leite


Em 2017 morreu, um dia após completar 71 anos, o compositor Luiz Grande. Embora morto, sua música “Caviar” eternizou-se na voz de Zeca Pagodinho. Luiz Grande pergunta de início na obra: “Você sabe o que é caviar?” E responde: “Nunca vi, nem comi eu só ouço falar!” O compositor e artista justifica: “Caviar é comida de rico; curioso fico, só sei que se come. Na mesa de poucos, fartura adoidado, mas se olhar para o lado depara com a fome. Sou mais ovo frito, farofa e torresmo, pois na minha casa é o que mais se consome. Por isso se alguém vier me perguntar, o que é caviar, só conheço de nome!” É... eita Caviar difícil de comer hein! Mas e a Democracia, o Caviar dos sistemas políticos de governo, como tem sido sua degustação?
O Estado Democrático, nos tempos modernos foi uma das gloriosas conquistas que o Ocidente já obteve. Desde muito tempo antes mesmo de Cícero, no inicio da era cristã, já se sabia os males que o mundo sofreria, e sofre, com formas de governos inclinados a controlar a vida das pessoas de forma a cercear seus direitos humanos, afinal de contas já dizia o sambista: Na mesa de poucos, fartura adoidado, mas se olhar para o lado depara com a fome. A República foi entre os antigos uma instituição do povo para o povo dentro de um consenso jurídico numa comunidade de interesses, basicamente. Então se discutia as formas de governo que atingiriam tais ideais. Se discutia como a receita do “Caviar” poderia ser melhorada e como todos poderiam tê-la disponível.
Contudo, desde os primeiros séculos de nossa era, os homens conheceram as mais amargas formas de governo: Impérios, reinos, principados, em suas formas absolutistas, monárquica, despótica, ditatorial, etc, sem dizer sobre suas faces religiosas. Passados muito tempo, desde os antigos até os modernos e cansados de cantar: ...Sou mais ovo frito, farofa e torresmo, pois na minha casa é o que mais se consome. Por isso se alguém vier me perguntar, o que é caviar, só conheço de nome! Você sabe o que é caviar? Nunca vi, nem comi eu só ouço falar. Mas você sabe o que é caviar? Nunca vi, nem comi eu só ouço falar... a experiência de fugir para longe dos sistemas de governo e o anúncio de um apocalipse próximo que só se antecipava, não se sustentou por muito tempo. Os homens procuraram sair dos “desertos” onde, inclusive, também eram atingidos pelo sistema, e procuraram construir o futuro: liberdade, paz, prosperidade, igualdade, etc. Sentir-se livre era o mais importante, sentir-se livre e autor de seu destino. Desde a Revolução Americana 1776, Francesa 1789, Haitiana 1791, “Liberté, Egalité, Fraternité” (Liberdade, igualdade, fraternidade, em português do francês) eram temas que estavam no coração do homem moderno. Invadiram a cozinha e foram experimentar na medida que distribuíam esse tal de Caviar!
            Após a primeira (1914-1918) e a segunda guerra (1939-1945), a maior parte do mundo chegara à conclusão de que somente o Estado Democrático de Direito era a solução para tantos anseios. Os muitos muros da separação caíram. Contudo, para nossa surpresa, hoje em dia os homens esqueceram-se de quão difícil foi a conquista e o compartilhamento da receita do Caviar (talvez porque a receita tivesse sido alterada ou erraram em alguns dos passos) e viveram como se dela nunca tivessem provado, ainda cantando: Você sabe o que é caviar?...Geralmente quem come esse prato tem bala na agulha, não é qualquer um. Quem sou eu pra tirar essa chinfra se vivo na vala pescando muçum. Mesmo assim não reclamo da vida apesar de sofrida consigo levar. Um dia eu acerto numa loteria e dessa iguaria até posso provar.
            Hoje, no Brasil, em plena campanha eleitoral, salta aos olhos o fruto de longos anos de trabalho da classe política brasileira e em alguma medida, nosso também. Aos gritos, em diversos meios de comunicação é possível ouvir sentimentos que norteiam a escolha do eleitor: ressentimento, medo, egoísmo, revolta, ódio, etc. Nesse calor, os políticos profissionais não estão preocupados com o tal do “Caviar”, pois os sentimentos, alimentados historicamente, já não tem paladar para Democracia. Os candidatos estão atentos ao sentimento popular, mesmo que seja contra a receita histórica, como num teatro assumem o personagem que nós queremos. Já se ouve pessoas dizendo: intervenção militar já! Os mesmo que querem que a História diga que ela nunca existiu. Por nos preocuparmos mais com cultura e costumes do que com política, produzimos frutos anti-civilização.  
            Aqui, em nosso país, o Estado Democrático é jovem! No entanto preferimos acreditar que nunca o provamos ou que isso é da Europa ou dos Estados Unidos, ou até pior: que nunca deveríamos ter provado. Nossa jovem República está sofrendo acusações que não é pertinente. A democracia tem suas próprias regras e consequências. O Caviar já foi conquistado, mas ainda temos pessoas em público (inclusive supostos intelectuais) requerendo do conteúdo da receita aquilo que ela não pode dar, senão deixará de uma só vez de ser Caviar! O que precisamos é conhecer bem e valorizar a Democracia, discutir política o ano todo e não somente em véspera de campanha, então males como: messianismo político, o excesso da judicialização, a indomável sede de consumo, o Estado paizão e vigilante, etc. terão menos chance de insurgir.
A Democracia que, com suor e sangue foi conquistado, para TODOS, só se mantém com EDUCAÇÃO PARA VIDA e de qualidade. Mas como valorizar aquilo que desconhecemos, embora comendo dele todo dia? É de partir o coração ver pessoas discutindo quem será o próximo chefe de cozinha nesse país, quando na verdade são 513 mais 81 chefes, fora os auxiliares que elaboram melhorias na receita do Caviar. Ah, mas você  tem certeza que sabe o que é Caviar?

Eduardo Leite – É Historiador

0 comentários:

Postar um comentário