terça-feira, outubro 16, 2018

Eficiência e sobrevivência no diabetes - Hermelinda Pedrosa


Tanto as doenças cardiovasculares como o diabetes são problemas considerados hoje como epidemias mundiais. São também duas das principais causas mundiais em taxas de mortalidade e morbidade, segundo dados da Federação Internacional de Diabetes. Quando essas duas causas estão associadas, o problema se potencializa. Pessoas com diabetes encontram nas doenças cardiovasculares, como infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVC), as principais causas de morte.

Com o envelhecimento da população e mudanças no estilo de vida, vem também a premência de colocar em pauta o crescimento de várias doenças crônicas, sendo que o diabetes e as doenças cardiovasculares são duas das que causam maior impacto na sociedade. É fundamental entender como é possível prevenir as doenças, mas uma vez instaladas, precisa-se debater como trata-las adequadamente.

Estima-se que até 80% dos pacientes com diabetes tipo 2 morrem em decorrência de problemas cardiovasculares.2Para se ter uma noção do quanto isso representa, a doença cardiovascular na pessoa com diabetes mata mais que HIV, tuberculose e câncer de mama na população mundial. Em pacientes idosos, com idades entre 51 e 69 anos de idade, a prevalência de doenças coronárias é de cerca de 32%.

Hoje, no Brasil, cerca de 75% da população depende do Sistema Único de Saúde (SUS) para assistência médico-hospitalar. Ou seja, três quartos dos brasileiros precisam cuidar do diabetes e o risco de doenças cardiovasculares no âmbito da saúde pública. Por isso, discutir como esse tratamento está acontecendo é fundamental.

Desde 2011, o SUS conta com uma comissão especial altamente qualificada para assistir no processo de incorporação de novas tecnologias para o sistema público de saúde. A Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) é uma instância que conta com representantes do Ministério da Saúde e sociedade civil, que avalia a inclusão de novas terapias e procedimentos dentro do sistema público.

A avaliação de tecnologia em saúde da Conitec avalia vários quesitos antes de tomar sua decisão, como eficiência e custo, além de analisar o impacto da doença na população e nos cofres públicos. São contemplados quantos pacientes necessitam hoje do tratamento, se há opções terapêuticas equivalentes e por quanto tempo a terapia seria necessária.

E é nesse ponto que as doenças crônicas pesam mais no cofre público. Não há uma data final, uma linha de chegada, quando estamos lidando com uma doença crônica. O paciente terá que receber tratamento para o resto da sua vida. Sem dúvida isso onera os cofres públicos, mas não tratar pode ter um impacto muito maior.

Atualmente, os gastos com o tratamento das doenças cardiovasculares em pessoas com diabetes chegam a 42% do total do financiamento. Cerca de 39% desses custos são para tratar infartos e, 23%, para acidentes vasculares cerebrais, conhecidos também como derrames. Em média, os gastos com pessoas com diabetes são o dobro do que para cuidar de pessoas sem a doença.

Investir em tratamentos que podem ajudar a reduzir o risco de complicações e procedimentos de alta complexidade em pessoas com diabetes é mais do que um ato de prevenção. É também uma gestão mais eficiente dos recursos públicos. Em matéria "Um País que Sofre com Enfermidades", publicada no Correio Braziliense na edição do dia26 de agosto, pesquisa do Banco Mundial aponta para a ineficiência dos gastos públicos na saúde no Brasil. Segundo a reportagem, seria possível o país prestar o mesmo nível de serviço com 34% menos recursos empregados. É hora de gerir com sabedoria e aplicar os recursos de forma eficiente.

No fim de agosto, a Conitec abriu uma consulta pública para recolher contribuições sobre a incorporação de um medicamento chamado empagliflozina para reduzir o risco de doenças cardiovasculares em pacientes idosos com diabetes. A Conitec publicou parecer contrário à incorporação do tratamento.

Como representante de uma sociedade médica, entendo ser fundamental chamar a atenção para o fato de que é possível prevenir doenças cardiovasculares em pacientes com diabetes, e que isso não só reduziria a mortalidade, mas também o impacto econômico.Segundo pesquisa feita pela King'sCollege, na Inglaterra, em parceria com a Universidade de Gottingen (Alemanha), em 2015, os gastos do Brasil com diabetes foram de US$ 57,7 bilhões, ou mais de R$ 228 bilhões.

Estima-se que, até 2030, essas despesas subirão para US$ 97 bilhões, podendo chegar a US$ 123 bilhões, ou R$ 492 bilhões.6 É preciso começar hoje a reduzir o risco da doença cardiovascular em pessoas com diabetes, não só para garantir a sobrevivência desses pacientes, mas para evitar no futuro gastos públicos com enfermidades que poderiam ter sido evitadas no passado.

Hermelinda Pedrosa é endocronologista e presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes

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