sábado, fevereiro 09, 2019

O que esperar de melhor na vida? - Hagamenon Brito



É, o poeta inglês Philip Larkin tinha razão: “O que sobreviverá de nós é o amor”. Houve um tempo em que Deus era o amor.  A onisciência do Senhor preenchia tudo o que sentíamos por pessoas e coisas. Ou, pelo menos, deveria preencher os corações dos homens de boa-fé e boa vontade. Às vezes, em sonho, tremo e me vejo naquele tempo. Se acreditasse em reencarnação, diria que fui queimado na fogueira junto com os meus livros e os meus gatos, enquanto via meus inimigos regozijando-se sob o clarão das chamas, como corvos numa luta do suposto bem contra o suposto mal.
O amor divino, no entanto, foi substituído pelo amor humano com o declínio da fé religiosa, como nos conta tão bem o filósofo inglês Simon May no livro Amor: Uma História (Zahar/R$ 60/e-book R$ 40/376 páginas/tradução: Maria Luiza X. de A. Borges). Desde o fim do século XVIII, esse tal de amor ocupou cada vez mais o vácuo deixado pela retirada do poderio esmagador do cristianismo. A fórmula “Deus é amor” virou “o amor é Deus”, de tal  modo que o amor agora é a religião não declarada do Ocidente – e talvez a sua única religião que desfruta de aceitação geral.
O que isso significa realmente? “Significa que em culturas formadas pela tradição cristã, o amor genuíno tende a ser modelado segundo certa imagem do amor divino, quer sejamos ou não cristãos”, responde Simon May, que, com rigorosa pesquisa, atravessa dois milênios e meio de pensamento ocidental para demonstrar que nosso ideal de amor se desenvolveu a partir de suas origens hebraicas e gregas, através do cristianismo.  Com texto fluente e espirituoso, o professor da Universidade de Londres cita filósofos e escritores, tanto céticos como crentes no amor, que ousaram pensar de uma maneira diferente sobre o tema.
Existem críticos da ideia de se filosofar sobre o amor, como se fosse algo inútil ou que pudesse tirar a magia da emoção. Desde a adolescência, me interesso profundamente por estudos sobre o assunto, até mesmo para tentar compreender a minha relação -  protestante - com Deus (mais forte até os 13 anos), os padrões de afeto com os meus pais e os amigos, os funcionamentos do desejo, a intimidade, o sexo, filhos, etc. E, apaixonado por música pop, cinema e literatura, como não gostar do amor além da superfície de suas águas? A pedra atirada no lago, com jeito, saltita e cria círculos, mas sempre quis saber qual o destino final dela no fundo da água turva.
Demorei - ou tudo aconteceu no tempo certo - a entender que o amor erótico não saciava a minha sede. Eu não sou o cara nesse departamento, se é que você me entende. Lidar com o ciúme, por exemplo, era um desafio enorme e criava monstros. Era algo que acabava por destruir as virtudes da intimidade amorosa, como a empatia, o respeito e a tolerância. Quando se tem essa consciência numa relação, a agressão ao objeto do nosso afeto nos fere na mesma intensidade.
Felizmente, se não sou o cara no amor erótico, ainda que guarde dois grandes amores na parede da memória, o afeto  incondicional pela minha garota e os meus gatos me tornou um ser humano melhor. Esse tipo de sentimento contém a mesma essência conceitual do amor romântico: um enlevo que sentimos por pessoas e coisas que inspiram em nós a esperança de um alicerce indestrutível para a nossa vida, ainda que aceitemos também que ela é temporária e terminará na morte. O que podemos esperar de melhor na vida? Amor, saúde, prosperidade e paz, claro, e que os ímpios, os maus e os pobres de espírito mantenham distância.

Hagamenon Brito é jornalista e crítico de música 

0 comentários:

Postar um comentário