quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Solidariedade, sempre – Gonçalo Antunes de Barros


Em tese de doutoramento intitulada ‘De la Division du Travail Social’, Émile Durkheim, nos idos de 1893, discorre sobre a interação social dos indivíduos. O aforismo social tenta revelar o que faz a unidade, estabilidade e continuidade das relações entre humanos no trabalho.

Conforme a perspectiva ‘durkheimiana’, existem dois tipos de solidariedade neste campo: a mecânica e a orgânica.

A primeira, é das sociedades que se organizam em clãs ou tribos, com os mesmos desejos, pensamentos e crenças. Nestas, conhecidas como ‘arcaicas’ ou “primitivas”, a comunhão é verdadeira, não havendo o predomínio de competições desnecessárias. O indivíduo tem consciência do próprio valor, não havendo espaço para sentimentos menos nobres, como a inveja, sentimento destruidor de relacionamentos sociais. A subsistência do grupo possui maior importância, sob a máxima de que ‘uma mão lava a outra’. A ação é em prol da aliança, sempre, o bem de um é o bem de todos.

A outra, solidariedade orgânica, é a predominante nos agrupamentos mais ‘modernos’ ou ‘complexos’.  Aqui, o individualismo é visível, já que o capitalismo floresce. Em tempos de ‘salve-se quem puder’, não há compartilhamento de valores, crenças e interesses. Acontece a divisão do trabalho, e, para cada qual, é inimaginável a repartição de problemas, sendo o nome ‘solidariedade’ utilizado apenas formalmente. Qualquer forma de coesão, neste particular, acontece puramente com o fito de garantir a própria permanência no trabalho.

Trasladado para os nossos dias, é possível perceber as duas formas de solidariedade no meio laboral. O predomínio da mecânica faz o ambiente extremamente agradável, onde os trabalhadores e trabalhadoras acolhem com facilidade. O carinho com o trato pessoal é visível, acompanhado de sorrisos, largos ou discretos, de felicidade.

Quando a orgânica é a tônica da organização, nota-se o temor e dificuldade em estar no desempenho do trabalho, com horas, minutos e segundos contados para o fim do dia. O dirigente, na verdade, é o algoz. A vitória alheia é quase uma ofensa pessoal.

Aqueles e aquelas responsáveis por administrar o trabalho, seja público ou privado, possuem a responsabilidade de escolher qual o tipo de execução de trabalho que anseiam. A aliança perfeita é formada sem que os envolvidos e envolvidas sequer se deem conta.

Lembrem-se, a escolha é do chefe, mas o lombo é dos demais.

É por aí...


Gonçalo Antunes de Barros é juiz de direito em Cuiabá.

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